Sabe, Deus…
Às vezes, eu fico pensando no tempo que a gente perde — no tempo que foge, leve e silencioso, como a fumaça que sobe de uma xícara esquecida sobre a mesa.
Penso nas coisas que eu queria viver e não posso mais. Nas pessoas que se foram e deixaram um espaço quente no peito.
Sinto saudade dos meus tios, das minhas tias, dos meus primos que já se foram, dos meus avós, dos meus padrinhos e madrinhas.
Saudade deles, Deus.
Tanta saudade.
Ah, se eu pudesse voltar só um minutinho…
Voltar para andar nas fazendas, visitar o sítio do meu avô, abraçar cada um deles, sentir o cheiro do chá de chocolate que minha avó fazia.
A carne assando, o povo rindo, a vida simples e inteira.
Como era bom.
Tenho a memória dos cheiros, da chuva, de correr descalça pela terra molhada, de brincar no rio com meu irmão, de montar nos bezerros e cair no chão entre risos e poeira.
Como era bom viver assim — tão leve, tão inteiro.
Hoje, dói saber que esse tempo não volta.
Dói, sim. Mas também aquece o coração saber que eu vivi.
Vivi tudo isso.
E vivi muito mais.
Agora, olho esta nova geração e me pergunto, Deus…
O que será dela?
Que não brinca na chuva, não sente o cheiro da terra, não se machuca nem se cura com um abraço?
Vivem tão rápido, tão conectados… e tão sozinhos.
Tenho medo, Senhor.
Medo do vazio que as redes sociais não preenchem.
Medo do esquecimento da alma.
Mas, ainda assim, eu Te agradeço, porque dentro de mim mora tudo o que o tempo não levou:
O cheiro do chá de chocolate,
a voz dos que amei
e a certeza de que cada lembrança é um milagre guardado em mim.
Bernadete de Araújo Carney
Ecos do Eterno — Bacayurveda

